Artigo de Andréia Donadon Leal: Transfobia e ignorância

 

Andreia Donadon Leal
Mestre em Literatura e Doutora em Educação

MARIANA, MG [ ABN ] Após repercussão a pronunciamento de Ratinho em seu programa sobre a eleição de uma mulher trans para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara, decidi assistir ao vídeo e refletir sobre suas declarações.

Respeito a opinião e a posição do apresentador televisivo, pois vivemos em um país democrático onde as opiniões são livres. No entanto, é fundamental não confundir opiniões com agressões a pessoas ou a grupos de pessoas. Sua fala, especialmente no mês de março, apenas reforça o machismo que permeia a sociedade e perpetua estigmas negativos sobre todas as mulheres, trans ou não. Quem autoriza um homem em rede nacional de televisão a abrir as pernas, debochando dos exames preventivos das mulheres? Para muito além de mera opinião, suas palavras são ofensivas, machistas e desrespeitosas, não apenas em relação à deputada, mas a todas as mulheres.

A importância dos veículos de comunicação não pode ser subestimada. Eles têm o poder de moldar opiniões e influenciar comportamentos em larga escala, inclusive potencializar ataques às mulheres. É crucial que esses canais sejam utilizados para promover uma comunicação não violenta e respeitosa ao ser humano. Em vez de deboche e desdém, precisamos de discursos que valorizem e respeitem as vivências das mulheres e das pessoas trans. Chega de piadinhas que menosprezam nossas experiências e desafios! A fala machista do apresentador desencadeou centenas de comentários misóginos e transfóbicos nas redes sociais, compartilhados aos milhares por pessoas igualmente misóginas e transfóbicas!

A falta de compreensão do apresentador sobre os picos hormonais femininos é rasa e preocupante. Como mulher, posso afirmar que, durante minha menstruação, não me tornei “chata” por três dias. Essa estigmatização que mulher se torna chata “nesses dias” prolifera mais violência e ataques. Além disso, sua atitude ao abrir as pernas para mencionar o exame Papanicolau é uma ofensa clara, evidenciando mais um desprezo e deboche em relação à vida das mulheres, debochando da seriedade de procedimentos essenciais de medicina preventiva.

Ser mulher não é uma questão de complexidade ou dificuldade; o que realmente é desafiador é conviver com homens misóginos, debochados e violentos. É difícil lidar com aqueles que utilizam programas de auditório para perpetuar a violência de gênero. Pergunto-me: quantas pessoas assistem ao seu programa e quantas replicaram suas palavras nas redes sociais? Quantas, após sua declaração, se sentiram à vontade para debochar ou desrespeitar de pessoas trans? O apresentador não faz uma reflexão sobre os impactos de declarações que violentam pessoas ou grupos de pessoas?

Sua fala não apenas ofendeu a deputada, mas também desencadeou uma avalanche de desrespeito que reverbera entre todas nós, mulheres. É essencial que a sociedade entenda que seu deboche e desrespeito não são aceitáveis. A comunicação deve ser uma ferramenta de educação, empoderamento e respeito, e não um meio de disseminar preconceitos e ofensas, especialmente porque desencadear esse tipo de comentário não faz sentido algum, pois a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher já foi presidida por homem e não causou qualquer desconforto nem na Câmara dos Deputados nem fora dela. Qualquer membro da Comissão pode presidi-la, segundo o regimento da Câmara dos Deputados: mulher, homem ou mulher trans. Isso deixa clara a causa do incômodo do apresentador: transfobia, ignorância do tema em pauta e do que é ser mulher numa sociedade machista. Talvez não tivesse havido qualquer comentário, se o Delegado Éder tivesse sido eleito presidente daquela Comissão, pois homem comandar é normal, não é?

Comunicação violenta traz consequências graves para a sociedade. É crucial que discussões em programas televisivos sejam promovidos de forma respeitosa e empática, estabelecidas por linguagens não-violentas. Que essa situação sirva de ponto de reflexão para todos nós sobre a responsabilidade que temos ao utilizar os veículos de comunicação ou redes sociais.